12.1.11

Life, de Keith Richards




O estereótipo de tudo que envolve um rockstar. Essa é a imagem que acompanha Keith Richards desde que os Rolling Stones se tornaram uma das bandas que mais simbolizam o tripé do gênero musical – sexo, drogas e rock n’ roll. Mick Jagger pode até ter sido o bonitinho da banda, que parece ter tentado engravidar uma mulher em cada continente, mas Keith Richards é o único cara que sobreviveria a uma bomba nuclear, de acordo com a piada que corre entre os fãs da banda. Somente ele e as baratas. Mas em sua autobiografia, escrita com a ajuda do jornalista James Fox, o roqueiro não hesita em desmentir muitas das lendas que acompanham sua vida como músico. E também de reforçar muitas outras.
São seiscentas e trinta páginas, espaço o suficiente para o músico contar detalhes de muitos anos de vício em heroína, destilar algum veneno e é claro, dar a receita de seu prato preferido. De todas essas páginas, cerca de quinhentas são interessantes, o que está bem acima da média para um livro desse gênero. Grande parte do mérito está na cara de pau do guitarrista, que não demonstra muito arrependimento sobre nada daquilo pelo que foi julgado pela mídia ao longo das décadas e aceita o título de grande sobrevivente da música. Não, Keith Richards não é um cara humilde, ainda bem.
O fã dos Stones não deve esperar, no entanto, uma biografia da banda. Esta, serve apenas de plano de fundo para os inúmeros incidentes com drogas, com a polícia e sobre a vida pessoal do músico que são contadas no livro. Mas a história de muitas músicas, como Satisfaction e Gimme Shelter são esmiuçadas, talvez até mesmo para afastar os boatos que correm a respeito de sua criação. Keith nega, por exemplo, que Gimme Shelter tenha sido escrita como forma de expressar sua agonia ao saber da traição da então namorada, Anita Pallenberg, com o próprio amigo Mick Jagger. Mick, aliás, não ganha voz ao longo da história. Richards chamou uma série de amigos e familiares para contribuírem com declarações e histórias para serem inseridas ao longo da obra. Há várias inserções de Marlon, o filho mais velho do guitarrista, que viu ainda na infância as experiências mais pesadas dos pais com as drogas. Patti Hansen, a atual esposa, também narra sobre o dia em que conheceu o marido, e até mesmo a modelo Kate Moss dá um depoimento inesperado sobre o dia em que testemunhou o roubo de um dos ingredientes do prato preferido de Keith, no dia do casamento da filha dele. Mas Mick ou qualquer outro integrante da banda estão ausentes.
Esse mesmo recurso de inserir depoimentos de coadjuvantes em meio à narrativa passa de enriquecedor, a ser monótono ao longo das páginas. Algumas histórias parecem um pouco repetitivas e desinteressantes, principalmente nas últimas páginas do livro.
Um grande apelo da obra está nos desafetos de Keith. Há quase um capítulo inteiro dedicado a enumerar as fraquezas e defeitos de Mick Jagger, o que rendeu manchetes para jornais durante um bom tempo após o lançamento da biografia, em novembro do ano passado. De acordo com Richards, Mick se tornou insuportável nos anos 1980, e tão egocêntrico que ignorava os demais membros dos Stones. Um “vocalista mandão de pênis pequeno”, em um trecho que foi mal interpretado por jornalistas de todo o mundo, e explicado por Keith posteriormente, que se retratou dizendo nunca ter visto o amigo nu para saber tamanhos detalhes. A relação entre vocalista e guitarrista é um assunto recorrente, e muda a cada página. Ao mesmo tempo em que Keith fala sobre suas mágoas com Jagger, ele jura que seria o primeiro a defendê-lo, como um irmão.
Mas Jagger não é o único Stone a ser alfinetado. Brian Jones, o guitarrista morto em 1969, é retratado como um homem maldoso,          fraco e intolerante com as namoradas, as quais espancava quando se recusavam a participar de orgias com ele. Um “filho da puta lamuriento”, em uma análise bastante fria sobre o integrante que batizou e liderou a banda em seus primeiros anos. Richards não compareceu nem mesmo ao enterro de Jones, e ainda revela que o show em homenagem a Brian, logo após a sua morte, foi apenas uma conveniência para a banda.  
A maior ironia sobre a biografia de Richards é o fato de ela desmentir, uma a uma, muitas das lendas que fazem parte do mito que ele se tornou. Não, ele nunca trocou todo o sangue do corpo. E também não estava escalando uma palmeira para cumprir uma tradição local, no incidente de sua queda de uma árvore em Fiji, em 2006. O famoso caso da batida policial em sua casa, nos anos 1960, no qual Marianne Faithfull foi encontrada nua com uma barra de chocolate entre as pernas não passa de uma distorção absurda da história. E quanto aos rumores de ter cheirado as cinzas do pai, bem, isso ele explica se tratar de outro caso mal interpretado. Não havia cocaína misturada às cinzas, como tanto foi falado, mas apenas os restos mortais de Bert Richards, que foram metidas narinas acima da forma mais afetuosa possível.
Quanto às mulheres e ao sexo, Keith conta que vinham de forma fácil, mas que ele nunca teve talento para cantadas ou aproximações. Vale lembrar que estamos falando sobre um guitarrista que dorme com sua guitarra, e que descreve o instrumento de forma erótica e apaixonada. Porque muito mais recorrentes do que as histórias sobre relações amorosas com mulheres são as passagens nas quais o músico demonstra toda sua afeição por cada acorde já tocado e cada letra já escrita por ele.
“As pessoas amam essa imagem (...), elas querem que eu faça o que elas não podem fazer”, confessa o músico sobre a persona que foi criada para ele. E a verdade é que o anel de caveira, o cigarro sempre pendurado em um canto da boca e as roupas e acessórios com ares de pirata contrastam com as reboladas, topetes e bicos de Mick Jagger, fazendo com que aquele fã mais antigo e hardcore dos Rolling Stones sempre tenha uma preferência pelo guitarrista feiosinho.
Há quem defenda que as grandes bandas devem encerrar as atividades quando estão no seu auge criativo, para que não passem a decair a partir dali. E há também quem acredite que lendas da música são aqueles que morreram jovens, em decorrência de uma vida desregrada e rápida, como pede o rock. Os Rolling Stones não escrevem nenhuma música que tenha ido às paradas de sucessos já há algumas décadas, e Keith Richards já passou há décadas da perigosa idade dos 27 anos. Mas é um grande alívio para os fãs de rock n’ roll o fato de que um de seus maiores mitos ainda está nos palcos, e viveu para reforçar em um livro o título que melhor o define – o de o cara mais legal do mundo. 

3 COMENTÁRIOS:

ringa disse...

muito bem escrito seu texto!sou fã do blog, e acho bem digna a maneira da qual descrever esse mundo do rock, que tantos acham que é só glamour... tudo tem sua parte podre, e conhecê-la e tomá-la como uma lição pra vida, é importante, não esquecendo que idolos do rock são apenas pessoas normais, com defeitos e qualidades.
boa sorte, que continue com texto de alta qualidade que nem esse!

groupies'lounge disse...

obrigada ringa! também acho importante a gente lembrar do outro lado dos rockstars. ter ídolos é ótimo, mas temos que ter em mente que não são pessoas perfeitas, longe disso. obrigada pela visita!

M disse...

He, eu tava já com saudades do Groupie's Lounge, sensacional.